Skip directly to content

Certo e errado: opostos que equilibram a vida

Artigo

Por Patrícia Quaresma Ragone

Destacar-se no trabalho, na vida sentimental, cuidar da casa, do corpo e da alma. Esses são os nossos desafios diários. Atualmente, há uma busca incessante de como podemos nos comportar da melhor forma possível diante de tantas mudanças de valores e de novos paradigmas sociais. O que precisamos é aprender a nos relacionar da melhor maneira possível, tornando, assim, a nossa vida mais serena, equilibrada e organizada.

A família é a chave de tudo. O núcleo familiar consiste no pilar sobre o qual a criança e o adolescente irão desenvolver e edificar seus esquemas cognitivos, sejam estes funcionais ou não. As mudanças na sociedade contemporânea afetaram a família, inclusive na sua própria concepção. O que definirá uma família como tal é a responsabilidade e o compromisso assumido perante a criança.

Se a família apresenta diversos arranjos, isso não exclui a preocupação com a sua funcionalidade. A questão central continua a ser: como auxiliar os pais na criação dos filhos.

Para responder a esta questão, busca-se apresentar aos pais uma nova forma de ver como as pessoas empregam o pensar para resolver os problemas ou, mesmo criá-los e agravá-los. Tudo isso embasado na Terapia Cognitiva e SUS aplicações.

O que você pensa sobre seu filho?

Um desafio atual é demonstrar como a influência dos pensamentos dos pais permanece forte e arraigado dentro das famílias e a presença crescente de outros estímulos modernos, com a internet e a televisão. Um modelo racional de educação refere-se à noção de que este, além de ser resultado de amor e dedicação, deve ser embasado em pesquisas e resultados que a ciência disponibiliza sobre o tema.

A ideia é incentivar os pais a coletar informações que os auxiliem na tarefa de formação dos filhos: comprar livros, frequentar palestras, discutir com orientadores, participar de treinamentos, trocarem experiências entre si, ou seja, envolver-se plenamente na educação dos filhos.

A forma como se educa um filho reflete-se no modo como ele se comportará e nos aspectos que valorizará em sua vida futura. Isso ocorre por meio da aprendizagem de ideias, crenças e valores que ditam as regras do pensar e do agir da criança nas diferentes situações de seu dia-a-dia. Por isso, os pais têm uma grande responsabilidade na criação dos seus filhos e uma forma de contribuir positivamente é analisar o estilo de educação que se transmite a eles.

A partir do modo como os pais explicam os erros e acertos da criança ou deles próprios, desenvolve-se o estilo explicativo dos filhos. A postura otimista ou pessimista dos pais terá uma relação direta sobre como o filho irá se comportar diante das situações. A ideia não é mascarar o fracasso ou o erro, e sim propor uma nova maneira de refletir sobre a situação.

Diante de um momento ruim, os pais otimistas terão a capacidade de mostrar ao filho que os maus eventos são passageiros. São esses pais otimistas que ajudam os filhos a relativizar situações, a ganhar flexibilidade de pensamento e, assim, desenvolver esquemas mentais mais funcionais de autoestima, competência e adequação social.

Estimular atitudes positivas, definir limites e aplicar uma punição, enfim, ser pai comporta uma infinidade de ações que, muitas vezes, são realizadas sem que se percebam seus impactos na formação dos filhos. Tomar decisões no momento de educar a criança ou o adolescente não é um processo fácil, principalmente quando se trata de recompensar ou punir os filhos.

Desafios na educação

Dúvidas sobre a maneira mais adequada de corrigir um comportamento ou, ao contrário, estimulá-lo são frequentes. Como fazer com que os filhos ajam de uma maneira e não de outra? Para a maioria, a resposta seria impor limites que, se ultrapassados, precisariam ser novamente impostos por meio da punição. O que se ignora, nesses casos, é o poder do reforço.

O reforço é uma estratégia comportamental básica que geralmente produz resultados rápidos para a obtenção de comportamentos-alvo desejáveis. Ele pode ser implementado de várias formas, como dar alguma coisa (elogio, abraço, atenção, recompensa), o que seria um reforço positivo, ou tirar ou proibir algo, o que constituiria assim um reforço negativo.

Ao elogiar, os pais precisam entender que os reforços verbais devem ser imediatos e isentos de crítica. Se a intenção é recompensar o filho, não tem sentido o reforço vir acompanhado de algum julgamento. O objetivo é incentivar a prática de um comportamento desejável, e não julgar a criança ou adolescente.

É importante que os pais entendam que, ao empregar com frequência esse esforços ao comportamento desejável, eles estarão contribuindo para a diminuição dos comportamentos indesejáveis e, portanto, aos poucos, deverão gastar menos tempo e esforço com a punição.

Integração Familiar

O envolvimento dos pais na formação dos filhos, inclusive no que se refere ao incentivo aos comportamentos desejáveis requer, ainda, momentos de integração familiar. A criança ou adolescente precisam sentir que os pais gostam da sua presença, se interessam por eles e se preocupam com seu bem-estar. Sentimentos assim ativam os esquemas funcionais de estima, adequação e competência. A presença dos pais em apresentações de danças, competições esportivas ou eventos promovidos pela escola é fundamental para despertar no filho tais esquemas.

Na atualidade, a falta de tempo constitui um problema para a promoção das atividades que integram a família. Cada núcleo familiar deve criar os próprios momentos: um almoço no domingo, uma conversa na hora de dormir, um final de semana juntos. A regra não deve ser a quatidade de tempo que se passa junto e sim a qualidade desses momentos.

As atividades da família tampouco têm que estar restritas àquelas com a finalidade de entretenimento. Pais e filhos podem ir juntos ao supermercado, conversarem no carro, enquanto se deslocam de um local para outro. A intenção é estimular os pais a aproveitarem ao máximo os momentos em família, mesmo que não sejam demorados, mas para que sejam frequentes e intensos.

Estabelecendo regras e limites

No dia a dia, há momentos em que não cabe alternativa senão a de ordenar e se fazer obedecer. Mas, mesmo nesses momentos, é necessário saber a forma mais adequada de dar uma ordem, uma instrução ou até mesmo efetuar uma punição. Inicialmente, os pais devem ter certeza de que as regras expostas aos filhos estão claras e, portanto, não são arbitrárias.

As crianças e adolescentes precisam identificar os limites: o que se pode ou não fazer e quais as sanções no caso da infração dessas regras. A figura de autoridade é fundamental para fazer com que as regras e limites sejam incorporados, especialmente entre os seis e os dez anos de idade, período em que as crianças desenvolvem a moral, incluindo noções de valores ligados à ética, a ideia do certo e do errado, do verdadeiro e do falso.

Ao dar uma ordem, deve-se evitar palavras que possam ser confundidas com pedidos ou súplicas. Isso reduz a possibilidade da criança acreditar que pode escolher entre seguir ou não a ordem dada. Uma vez estabelecidos os limites, os pais não podem ficar passivos diante da transgressão. Ignorá-la seria passar uma mensagem ao filho de que ele não precisa obedecer a ninguém.

Seguir alguns passos ao dar uma ordem pode torná-la mais eficaz, ou seja, aumentar as possibilidades de que seja obedecida. O primeiro consiste em dar comandos específicos, incluindo um espaço de tempo para o cumprimento do que foi demandado, como mandar o filho guardar a roupa. O segundo passo é dar um comando de cada vez, preferencialmente, usando um tom firme e bem modulado. Exigir múltiplas tarefas pode deixar a criança confusa, fazendo com que ela se esqueça de algumas instruções e, assim, coloca em risco o cumprimento de todas as tarefas solicitadas.

Um vez cumprida a ordem, para que tal comportamento se repita é necessário recorrer aos esforços. Se a criança ou o adolescente não obedecerem, caberá aos pais utilizar técnicas de punição com vistas a corrigir ou evitar o comportamento indesejável. O que os pais devem se lembrar é que para cada idade há uma estrutura cognitiva correspondente, e isso deve ser levado em conta ao se exigir determinado comportamento, estabelecer regras e dar ordens.

Não se deve ensinar às crianças que bater nas pessoas é um método aceitável de resolver os problemas da vida, por isso o castigo físico é totalmente desaconselhado, assim como as agressões verbais. Estudos comprovam que crianças submetidas constantemente a insultos e humilhações apresentam riscos consideravelmente maiores de sofrer transtornos psicológicos. Ao se dirigirem aos filhos de forma agressiva, além de minar a qualidade da relação entre eles, desviam o conteúdo da mensagem para a forma como ela está sendo transmitida. As crianças aprendem muito com os comportamentos dos pais.

É preciso frisar que algumas regras são absolutas - não roubar, nãof azer o mal, não destruir - e, portanto, devem ser respeitadas por todos, independentemente da idade ou das características individuais. Os comportamentos estão muitas vezes associados aos estágios de desenvolvimento da criança e do adolescente. Identificando cada etapa, os pais pdoerão contribuir para o aprendizado do filho.

Filhos Adolescentes

A comunicação entre pais e filhos adolescentes pode se tornar mais problemática. Para comunicar ao mundo suas ideias e valores, os adolescentes mudam seu jeito de vestir, de se pentear, colocam piercings, brincos, tatuagens. Cabe aos pais tentar entender o que eles estão querendo dizer sem ficarem presos necessariamente à questão da aparência.

Outro ponto que os pais devem ficar atentos é em relação àquela indisposição típica do adolescente, à necessidade de isolamento da família. Essa indisposição não é de caráter pessoal e permanente. A postura típica do adolescente não necessariamente significa que este queira desacatar os pais, mas que aquilo faz parte do silêncio de que ele necessita, e deve ser tomada em caráter transitório.

Os adolescentes precisam se distanciar um pouco dos vínculos primários para ver o quão estão prontos para alçar voo próprio. O probelma é justamente a interpretação que os pais fazem desse comportamento. Se estes entendessem que essa fase não tem caráter definitivo, que a postura do filho não constitui um ataque pessoal, mas tem, inclusive, causas hormonais e psicológicas, ficariam menos incomodados, e os conflitos nas famílias ocorreriam em menor escala e por menos tempo.

Preocupem-se menos e usufruam mais

Ser pai não é ser 100% responsável pelo sucesso ou fracasso dos filhos. Assim, deve-se definir quais são as preocupações produtivas, eliminando as improdutivas. As preocupações produtivas são aquelas que o pai define como meta para o filho. É tudo aquilo que se consegue transformar em alternativas e em soluções que gerem crescimento.

Já as angústias surgem com as procupações improdutivas. Preocupar-se, por exemplo, se o filho, ainda pequeno, será uma pessoa feliz, se será aceito pelos futuros colegas ou se será capaz de aprender vários idiomas, é algo desnecessário naquele momento da vida.

Os pais nãod evem ter medo de serem pais, isso está trazendo enormes prejuízos para a família. Criar filhos não deve ser encarado como algo muito complexo, mas, sim, de forma simples. Deve-se trabalhar com a perspectiva do erro e do acerto, de ter sempre o dia seguinte para recomeçar.

Eles têm que se reconehcerem como seres humanos, passíveis de erro. Além de perderem o medo de errar, porque isso faz parte da vida. Aceitar-se como ser humano implica, ainda, que ser pai não é anular-se. Para serem pais funcionais é necessário não esquecer seus sonhos pessoais, manter interesses pró´rios e, em nenhum caso, se comportar como escravos dos filhos.

Acreditar no seu poder como pai ou mãe não significa, entretanto, ter completa segurança que seu filho seguirá uma ordem totalmente estabelecida. Na verdade, é acreditar que você forneceu a ele a base psicológica para que ele consiga ter discernimento e siga o caminho certo.

*Patrícia Quaresma Ragone é graduada em Psicologia e Pedagogia em Juíz de Fora (MG). Especializou-se em Terapia Cognitiva pelo Instituto de Terapia Cognitiva de São Paulo.