Skip directly to content

Estilo de Atribuição: Uma lente para a vida

 

ESTILO DE ATRIBUIÇÃO: UMA LENTE PARA A VIDA

 

Texto organizado por Patrícia Quaresma Ragone

 

A vida começa no mais completo “desamparo”. A criança recém-nascida não tem vontade própria, é uma criatura que age quase inteiramente por reflexo. Nos três ou quatro primeiros meses da vida de uma criança, alguns movimentos rudimentares dos braços e das pernas submetem-se ao “controle voluntário”. O movimento descontrolado dos braços aos poucos se apura e transforma-se no gesto de alcançar. Assim, também como o choro do bebê, que a princípio é uma simples reação condicionada à dor e ao desconforto e que depois passa a ser voluntário, já que pode usar para chamar a mãe. O primeiro ano se encerra com dois milagres do controle da vontade: os primeiros passos e as primeiras palavras.

O longo período entre a infância e nossos últimos anos é um processo que consiste na superação deste estado de desamparo e crescente conquista do controle pessoal.

Muitas coisas na vida estão além do nosso controle. Mas há um imenso território que podemos assumir o controle – ou cedê-lo a terceiros ou ao destino. Este território está relacionado com as ações que abrangem a maneira como conduzimos nossas vidas, como lidamos com as pessoas, como ganhamos a vida – todos os aspectos da existência sobre os quais normalmente temos algum poder de escolha.

A maneira como pensamos sobre os vastos domínios da vida pode ampliar ou limitar o controle que temos sobre ela. Nossos pensamentos não são meramente reações aos acontecimentos; eles modificam o que sucede. Se nos julgamos, por exemplo, sem condições para influir no destino de nossos filhos, ficaremos paralisados quando tivermos de enfrentar essa faceta de nossas vidas. A idéia de que “não adianta fazer nada” tolhe os nossos movimentos, impede-nos de agir. E, dessa forma, cedemos o controle aos companheiros, aos professores de nossos filhos e às circunstâncias. Se superestimarmos nossa incapacidade, outras forças assumirão o controle e modelarão o futuro deles. 

A contribuição dos pais na vida dos filhos deve ter início pela realização de uma análise sobre o “estilo de educação” que se transmite, pois a maneira como se educa um filho reflete-se no modo como ele se comportará e nos aspectos que valorizará em sua vida. Isto pode ocorrer por meio da aprendizagem, com os pais, de idéias, crenças e valores que ditam as regras do pensar e do agir da criança nas diferentes situações de seu dia-a-dia, ou seja, a forma como ela vai interpretar, explicar e atribuir-se nos vários eventos da vida e a própria vida.

Conforme postula Seligman (1995), estes“estilos de atribuição” são aprendidos durante a infância através principalmente da influência dos pais (e mais tarde de outros), constituindo as verdadeiras bases psicológicas. A partir da forma como os pais (e mais tarde outros adultos) explicam os erros e acertos da criança ou deles próprios, se desenvolve o estilo explicativo dos filhos. Quando uma criança/adolescente faz algo errado e um adulto briga dizendo-lhe “Você não é capaz de fazer nada correto (pessoal)”, “Você é uma pessoa desastrada (permanente)”, “Você sempre se comporta mal (abrangente)”, ensina-lhe a pensar dessa forma. Se você explicar um insucesso de maneira permanente e abrangente, estará projetando para o futuro o seu insucesso presente e para todas as novas situações, podendo precipitá-lo na mais profunda depressão. Entretanto, se o seu estilo explicativo for otimista, sua depressão poderá ser sustada. Isso não significa que não se deve criticar as crianças e sim, que é preciso cuidar da maneira de como fazê-lo, sem culpar a personalidade da criança/adolescente, sem usar “sempre” ou “nunca”. Deve-se mostrar que os erros são temporários, específicos e mutáveis. A criança/adolescente precisa errar, precisa vivenciar frustrações, mas ela precisa saber como explicar seus erros e falhas, e os adultos têm grande participação nesse aprendizado. 

É proposto que o “estilo de atribuição” de uma pessoa representa um dos mecanismos responsáveis pelo desenvolvimento de seu sistema de “esquemas cognitivos”. A atuação sobre o estilo de atribuição de uma criança teria reflexos sobre a formulação e reformulação de seus esquemas cognitivos, que refletem suas impressões sobre a regularidade do real.

O Modelo Cognitivo (Aaron T. Beck e colaboradores) e a Teoria dos Estilos de Atribuição (Martin Seligman) focalizam um modelo de prevenção de grande importância dos transtornos emocionais em crianças e adolescentes, pois os hábitos de pensar não precisam ser eternos... se são aprendidos, podem ser desaprendidos e reestruturados e esta é uma das descobertas mais importantes da Terapia Cognitiva ... o fato de os indivíduos poderem escolher a sua própria maneira de pensar, sentir e agir.

 

Referências Bibliográficas:

 

Seligman, M.E.P. (2005) Aprenda a ser otimista. (2ª. Ed.) Rio de Janeiro: Nova Era.

Seligman, M.E.P. (1995) The Optimistic Child. New York: Harper.