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Orgulho de nossas saias, rendas e laços

Patrícia Quaresma Ragone

Um jardim. Um quintal. Árvores frondosas e frutíferas. Quatro meninas com laços. Laços nos cabelos, todas com vestidos com casinhas de abelha e brincando em uma casinha de bonecas, que permanece ali até os dias de hoje.Esse cenário pode parecer excessivamente romântico e todas nós aqui poderíamos supor que essas meninas se transformaram em mulheres sem uma trajetória própria de vida. Mas eu posso testemunhar que essas quatro meninas – eu e minhas irmãs – nos tornamos mulheres determinadas com a vida! Minha mãe, sempre muito sensível, cuidava de cada uma de nós quatro e nos vestia e nos revestia com o senso de que a vida é preciosa.

Começo falando dessa maneira para compartilhar com vocês todas aqui presentes, Mulheres da Minha Vida - especialmente para as minhas filhas -, que ser menina, feminina e ser criada em meio a um contexto repleto de delicadezas, flores e rendas não implicam na formação de mulheres despreparadas para as mais diversas lutas que se colocam diante de nossas vidas. Recupero essa memória porque vejo, com muito pesar, que hoje, muitas vezes, a sociedade perde de vista que a força da mulher está naquilo que a diferencia, isto é, a sua sensibilidade.

Não é bom que nos percamos nas confusões contemporâneas e acabemos por complicar a vida. Numa tentativa ansiosa de se mostrarem decididas, muitas mulheres esconderam sua sensibilidade, sua delicadeza, seus laços e suas rendas e acabaram perdendo o que nós temos de mais valioso, a nossa natureza feminina. E o que isto quer dizer? Somos nós quem gestamos novos seres humanos. Somos perseverantes por natureza.Afinal, esperamos nove meses por um filho, sentimos as dores das contrações, as dores do parto, ficamos noites e noites sem dormir, nos dedicamos integralmente àquele novo ser. Ter um filho nos prepara e nos fortalece para a luta, para conquista.

Temos – minhas filhas, irmãs, tias, primas e amigas – que ter orgulho de nossas saias! Precisamos preservar nossa sensibilidade sem perder de vista que nisto está a nossa grande força. O compromisso com o outro estabelecido ao nos tornamos mães nos capacita para sabermos andar junto, ser companheira, a olhar para frente. Ao olhar para o futuro temos que nos colocar diante da questão de como podemos nos eternizar. E nos eternizar não significa querer ser de novo uma menina, se apegar a todo custo à nossa juventude. Não podemos pensar que o passar dos anos nos leva à degeneração, à depreciação. Precisamos gostar de nossa maturidade, daquilo que estamos vivendo, das marcas tão bonitas que ganhamos ao longo de cada dia vivido. Nosso melhor recurso é quando conseguimos ouvir verdadeira e cuidadosamente uma pessoa ou quando sentimos o calor vindo da alma de quem abraçamos. Se com os anos perdemos um pouco do vigor físico, também podemos desenvolver uma acuidade para enxergar e perceber o outro para além do que os olhos nos mostram.Há tempo para tudo.

Como as frutas, também temos as nossas fases. E aqui peço licença para reproduzir um pequeno bilhete que recebi da primeira mulher da minha vida, a minha mãe, e que veio acompanhando uma caixa cheinha de caquis:

Olhe que maravilha! Olhe a riqueza da natureza! Eu até me emociono quando avisto da janela azul, agora acompanhando a trepadeira que está vindo alegre para enfeitar o jardim da dona Vera e do seu Edinho. E agora estou mandando para os enfeites lá da minha querida filha, muita alegria para todos nós. Parabéns minha filha, você só me traz alegria. Muitos laços, muitos abraços.

Compartilho esse tão singelo bilhete, porque esse jardim que se alegra hoje com frutos de um pé de caquizeiro foi onde eu cresci e aprendi a cultivar a minha sensibilidade. Foi na casinha de boneca, lá no quintal de casa, que entre rendas e laços construí os alicerces da minha força. Por isso, hoje, ao comemorar mais um ano de vida, faço um convite a todas vocês: busquemos a força que vive dentro de cada uma de nós. Não abramos mão de olhar para dentro de nós mesmas!

Obrigada a cada uma de vocês por terem vindo hoje e por serem Mulheres da Minha Vida!

Belo Horizonte. Uma tarde de sábado, em 20 de abril de 2013.